Canais de acolhimento: o que são, porque funcionam e como implementar

canal de acolhimento

Empresas que buscam aprimorar sua cultura organizacional e fortalecer seus processos internos precisam de mecanismos que facilitem a comunicação segura e eficaz entre colaboradores e a gestão. Nesse contexto, os Canais de Acolhimento desempenham um papel estratégico ao oferecer um espaço estruturado para o relato de preocupações e incidentes que impactam o ambiente corporativo.

Esses canais contribuem para a prevenção de riscos e para a resolução de conflitos, permitindo que empresas adotem medidas adequadas antes que problemas se agravem. Além disso, ajudam a fortalecer a confiança dos colaboradores e a transparência nos processos internos.

Neste artigo, exploramos o conceito dos Canais de Acolhimento, seu impacto na gestão corporativa e como sua implementação pode trazer benefícios para a governança e a integridade organizacional.

O que é um Canal de Acolhimento? 

Os Canais de Acolhimento são um tipo especializado de canal de comunicação. Eles surgiram como estratégia para tratar situações e conflitos delicados, que afetam grupos específicos dentro do quadro de funcionários de uma organização. Tendo um canal adequado para comunicar tais situações, o processo de resolução feito pela empresa torna-se mais eficaz.  

Assim, são estruturas cuidadosamente concebidas para lidar com questões de extrema sensibilidade no contexto organizacional e uma ampla gama de temas, que frequentemente envolvem a diversidade, discriminação, assédio e inclusão. Esses canais são um recurso inestimável, principalmente para grupos minoritários que, em muitos casos, enfrentam desafios únicos e complexos. 

A capacidade de lidar com questões delicadas e sensíveis é fundamental para promover um ambiente de trabalho inclusivo e equitativo. Por meio disso, um canal de acolhimento contribui para a construção de uma cultura organizacional inclusiva, demonstrando o compromisso da empresa em fornecer um ambiente de trabalho onde todos se sintam respeitados e valorizados, independentemente de sua origem ou identidade.

Similares aos Canais de Ética, eles desempenham papel fundamental na consolidação da visão de grupo e de cultura organizacional. No entanto, se destacam em cenários específicos, nos quais o foco recai sobre o desenvolvimento de estratégias de inclusão, no âmbito interno, e de gestão da reputação da empresa, no âmbito externo. 

Por que os Canais de Acolhimento são importantes?

A importância dos Canais de Acolhimento está em sua capacidade de criar sinergia dentro da organização. Grupos minoritários podem expressar preocupações ou relatar situações em um espaço seguro e confidencial, enquanto a gestão catalisa relatos como indicadores reais para coordenar ações de inclusão e de transformação cultural.  

Todos ganham: colaboradores recebem o amparo necessário em situações que precisam ser administradas e combatidas, a empresa desenvolve uma perspectiva mais segura sobre o desenvolvimento de suas estratégias de inclusão, e o clima organizacional é orientado positivamente perante condições adversas. Por isso dizemos que um canal de acolhimento proporciona um sentimento de solidariedade e sinergia, importante especialmente em organizações em fase de aprimorar, disseminar e engajar novos valores em sua cultura. 

Políticas de incentivo como o “Emprega + Mulheres” pretendem impulsionar as estatísticas, implementando condições para atração e retenção de perfis diversos. O perfil demográfico está a favor da mudança: nos últimos dez anos, enquanto a população brasileira em idade ativa cresceu 13,4%, a quantidade de mulheres em idade ativa aumentou 26,4%, sendo 24,5% mulheres negras

População em idade ativa - mulheres
Fonte: https://ibre.fgv.br/blog-da-conjuntura-economica/artigos/crescimento-da-populacao-em-idade-ativa-e-maior-entre-mulheres 

A taxa de participação feminina no mercado de trabalho, entretanto, é de 51,1% para mulheres negras e de 53,6% para mulheres não negras, no primeiro trimestre de 2023. Isso significa que, em média, de cada dez mulheres em idade para trabalhar, apenas 5 participam do mercado (empregadas ou buscando um emprego). 

Fonte: https://ibre.fgv.br/blog-da-conjuntura-economica/artigos/crescimento-da-populacao-em-idade-ativa-e-maior-entre-mulheres 

Logo, o cenário apresenta o aumento da população em idade para trabalhar (e consequentemente, da população participante do mercado de trabalho) e, em contraponto, as maiores taxas de desemprego para mulheres negras e não negras, e menores rendimentos médios. 

Por que Canais de Acolhimento funcionam? 

De acordo com a Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias da Aliant, ao longo dos últimos dez anos (2014-2024), os canais de comunicação internos evoluíram significativamente. Originalmente concebidos para relatar fraudes e corrupção, eles passaram a englobar também questões comportamentais, como assédio, discriminação e conflitos interpessoais. Essa ampliação reflete não apenas uma mudança na legislação e nas regulamentações de compliance, mas também um amadurecimento da sociedade e das empresas na compreensão da importância de um ambiente inclusivo.

A pesquisa aponta que a tipologia mais frequente nos Canais de Denúncia em 2024 foi “Relacionamento Interpessoal”, correspondendo a 48,8% das ocorrências. Isso demonstra que as organizações estão cada vez mais atentas ao impacto das relações humanas no ambiente de trabalho e na qualidade de vida dos colaboradores. Pensando nisso, os Canais de Acolhimento auxiliam na implementação de políticas que tornem possível entender e mediar esses conflitos. 

Entenda como esse tipo de específico de Canal de Denúncias pode atuar nas empresas: 

Espaço seguro para relatos sensíveis

Ao contrário dos canais tradicionais, que têm foco investigativo, os Canais de Acolhimento são desenhados para proporcionar um espaço seguro de escuta ativa. Eles permitem que colaboradores relatem experiências traumáticas, como assédio e discriminação, sem medo de represálias. Empresas podem implementar canais anônimos, aplicativos de suporte emocional e treinamentos para a equipe de atendimento, garantindo um acolhimento efetivo e humanizado.

Fortalece a cultura organizacional

A existência de um canal especializado demonstra o compromisso da empresa com a inclusão, diversidade e segurança psicológica. Esse tipo de iniciativa fortalece a cultura organizacional ao garantir que todos os colaboradores sejam ouvidos e respeitados. Empresas podem criar campanhas internas de conscientização, desenvolver mentorias para grupos sub-representados e oferecer treinamentos sobre vieses inconscientes para líderes.

Mediação e resolução de conflitos

Muitas vezes, os conflitos internos não necessitam de uma investigação formal, mas sim de uma mediação eficaz. O Canal de Acolhimento oferece suporte para que situações possam ser resolvidas de forma respeitosa e construtiva, evitando agravamentos. Empresas podem capacitar mediadores internos, criar painéis de resolução de conflitos e disponibilizar serviços de aconselhamento confidencial.

Impulsiona a confiança nos Programas de Integridade

A pesquisa da Aliant indicou que 63,3% das denúncias em 2024 foram feitas anonimamente. Esse dado reforça a necessidade de mecanismos que garantam confidencialidade e segurança. Os Canais de Acolhimento contribuem diretamente para essa confiança, pois transmitem a mensagem de que a empresa realmente valoriza o bem-estar dos seus colaboradores. Para potencializar esse efeito, empresas podem divulgar casos resolvidos anonimamente, criar relatórios de impacto e promover feedbacks internos sobre as ações tomadas a partir das denúncias.

Atende a exigências regulatórias e práticas de ESG

Com a crescente pressão por práticas alinhadas aos princípios ESG (Environmental, Social and Governance), os Canais de Acolhimento se tornaram uma ferramenta estratégica. Eles garantem que a organização esteja cumprindo seu papel na promoção de um ambiente corporativo saudável e ético. Empresas podem integrar esses canais aos relatórios de sustentabilidade, oferecer treinamentos sobre boas práticas e firmar parcerias com instituições especializadas em diversidade e inclusão.

Impactos dos Canais de Acolhimento na prática

A Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias revelou também que, em 2024, 21,1% das denúncias estavam relacionadas a práticas abusivas, como assédio moral e agressões verbais. Além disso, 13,8% foram sobre descumprimento de políticas internas e 16,6% envolviam má intenção ou ilícitos.

O Canal de Acolhimento contribui para a redução desses números, pois proporciona uma abordagem mais humanizada. Quando as pessoas encontram suporte adequado para expressar suas preocupações, a tendência é que o ambiente se torne mais harmônico e as denúncias sobre comportamentos inadequados sejam prevenidas.

Além disso, a pesquisa aponta que 56,3% das medidas tomadas após denúncias envolveram medidas educativas ou preventivas, como treinamentos e orientação. Esse dado reforça que, mais do que punição, é essencial que as organizações invistam em conscientização e prevenção de problemas.

Como implementar um Canal de Acolhimento no Programa de Integridade? 

Um Programa de Integridade é um conjunto de regras e práticas que visam evitar condutas antiéticas e promover uma cultura organizacional ética. Ele pode atuar tanto na prevenção de riscos quanto no suporte a iniciativas de Direitos Humanos e Diversidade & Inclusão.

Dentro desse programa, um Canal de Acolhimento é uma ferramenta essencial para garantir que preocupações éticas sejam reportadas e tratadas de forma adequada.

Não há um modelo único de programa, mas estudos indicam que um programa eficaz inclui os seguintes componentes:

  1. Código de Ética – Define padrões de conduta e orienta colaboradores sobre práticas esperadas.
  2. Políticas Corporativas – Incluem regras de responsabilização, investigação e incentivos à conduta ética.
  3. Comitê de Ética – Responsável por coordenar, implementar e comunicar o programa.
  4. Treinamentos e Comunicação – Educação contínua para garantir o entendimento e a adesão às diretrizes.
  5. Monitoramento e Auditoria – Avaliação constante da conformidade e eficácia do programa.
  6. Canal de Denúncias e Acolhimento – Meio seguro para relatar preocupações e irregularidades.

🔗 Veja também: Como estruturar o setor de Compliance?

Treinamento e Monitoramento no Programa de Integridade

O treinamento ético, a comunicação e o engajamento são essenciais para a eficácia de um programa de conformidade. Treinamentos ajudam a esclarecer normas, orientar colaboradores e fortalecer a identificação de dilemas éticos no dia a dia. Isso cria um ambiente propício para discussões abertas e troca de experiências, fortalecendo a cultura organizacional.

Além dos pilares formais (Código de Ética e Políticas) e operacionais (Comitê de Ética), é fundamental monitorar e avaliar continuamente a ética da organização. Monitoramento e Auditoria garantem essa análise sistemática, permitindo ajustes e melhorias constantes.

  • Monitoramento interno envolve a análise contínua de práticas e comportamentos para identificar riscos e garantir a conformidade com as políticas.
  • Auditorias éticas realizam uma revisão detalhada dos processos para verificar aderência às diretrizes, apontar falhas e sugerir melhorias.

Essas medidas ajudam a manter padrões elevados de integridade e devem ser complementadas por canais de denúncia.

Canais de Denúncia e Acolhimento

Um canal de denúncia é essencial para permitir que colaboradores relatem condutas inadequadas sem medo de retaliação. Ele incentiva o diálogo sobre dilemas éticos e reforça a transparência na organização.

O Canal de Acolhimento tem papel semelhante, mas com foco no suporte e orientação. Ele amplia a conscientização sobre questões éticas e ajuda a prevenir e corrigir irregularidades, fortalecendo a cultura de integridade.

Como Canais de Acolhimento compõem um Programa de Integridade? 

Não há um consenso sobre os pilares exatos de um programa de integridade, mas estudos indicam que a combinação de diferentes componentes é mais eficaz na promoção de comportamentos éticos do que elementos isolados (RUIZ ET AL., 2014).

O Canal de Denúncias, por si só, não reduz diretamente comportamentos antiéticos, mas pode ser mais eficaz quando integrado a um Comitê de Ética e a outras medidas estruturais. Para consolidar uma cultura organizacional inclusiva e combater discriminação, é essencial que o programa de integridade contemple três pilares: Códigos, Comitê e Fiscalização.

Medidas para um compliance acolhedor: 

  • Implementar políticas claras de diversidade e inclusão em todas as áreas da empresa.
  • Oferecer treinamentos regulares sobre racismo, homofobia e outras formas de discriminação.
  • Adotar ações afirmativas para garantir oportunidades iguais para grupos historicamente marginalizados.
  • Criar canais seguros e confidenciais para relatar discriminação e assédio.
  • Realizar auditorias para identificar e corrigir práticas discriminatórias.
  • Promover eventos e ações que valorizem a diversidade e a inclusão.

Essas medidas fortalecem a ética organizacional e contribuem para um ambiente de trabalho mais seguro e respeitoso.

Como entender as tendências da área de Compliance?

A construção de um ambiente organizacional mais seguro e inclusivo depende de iniciativas que vão além do cumprimento de normas e regulamentações. Os Canais de Acolhimento são um exemplo claro desse compromisso, permitindo que as empresas adotem uma abordagem proativa para fortalecer sua cultura organizacional, promover a diversidade e garantir um ambiente de trabalho mais ético e respeitoso.

No entanto, para que essas iniciativas sejam efetivas, é essencial compreender como o Compliance e a governança corporativa estão evoluindo. A 2ª Pesquisa Nacional sobre as Necessidades e Tendências do Compliance revela insights valiosos sobre os desafios enfrentados pelos profissionais da área e como as organizações estão se adaptando a um cenário regulatório cada vez mais complexo.

Baixe a pesquisa completa e descubra as principais tendências que moldarão o Compliance em 2025.

 

Canal de Denúncias: tudo que você precisa saber sobre ele

canal de denúncias

Em qualquer empresa podem surgir relatos relacionados a casos de assédio, práticas de ilícitos e discriminação. Contudo, nem todas estão atentas aos cuidados que são indispensáveis no tratamento dessas questões. O Canal de Denúncias é uma ferramenta indispensável para quem deseja ter um mecanismo real de recebimento e tratamento de denúncias.

Esse tipo de ocorrência, sobretudo no ambiente corporativo, requer cautela e um tratamento estruturado por parte da empresa. Estamos falando de temas de extrema sensibilidade que, a depender do modo como são tratados nas organizações, evidenciam o valor que a empresa confere ao respeito e cuidado em sua cultura organizacional.

A falta de direcionamento adequado, por meio de Canais de Denúncia que sejam eficazes e processos estruturados de apuração, pode gerar impactos para a percepção da empresa tanto por colaboradores quanto por clientes ou parceiros de negócio.

Este artigo explora a complexidade desse processo, destacando o que é, de fato, o Canal de Denúncias, como pode ser usado e outras questões importantes para implementá-lo nas empresas. Veja ainda como pode ser um estruturado um fluxo eficaz do tratamento das ocorrências.

O que é um Canal de Denúncias?

O Canal de Denúncias é uma ferramenta usada pelas empresas para a captação, acolhimento e tratamento de relatos de colaboradores, pessoas em geral ou outras pessoas que tenham relação com a organização. Com foco na promoção da ética e integridade dos negócios, oferece às organizações meios de comunicação direta com seus diversos públicos.

O Canal de Denúncias independente é a ferramenta fundamental para um programa efetivo de Compliance. Esses relatos podem ser questões como a violação de regras de conduta ou leis vigentes, atos ilícitos, conflitos de interesse e outros comportamentos que desviam das regras estabelecidas naquele ambiente. Isso inclui práticas atreladas à governança ambiental, social e corporativa discutidas nos programas de ESG.

Os relatos recebidos pelo canal podem ser anônimos, sendo garantido o direito ao anonimato e não retaliação, ou identificados, quando o relator permite a sua identificação de alguma forma.

Cada vez mais empresas brasileiras estão se desenvolvendo para ter uma governança corporativa transparente. Um dos motivos é para estar em conformidade com regulamentações específicas, como a Lei Anticorrupção, Lei da CIPA e Lei de proteção de dados.

Outro impulsionador é a necessidade desse tipo de iniciativa para poder atuar em licitações públicas, estarem listadas na bolsa de valores ou terem autorização para funcionamento emitidas pelo Banco Central. As pautas ambientais e sociais reforçadas pelo conceito de ESG também influenciam nessa tendência.

Para que serve um Canal de Denúncias?

Um Canal de Denúncias efetivo é uma ferramenta importante para qualquer empresa, já que permite que funcionários, clientes e outros stakeholders possam reportar comportamentos inapropriados e até mesmo ilegais sem medo de retaliação. Situações indesejadas, acredite, estão ocorrendo neste momento em todas as empresas – inclusive a sua.

Elas poderiam ser informadas em um Canal de Denúncias eficiente, que identifica cerca de 40% de todos os casos de desvio, chegando a reduzir em 59% o impacto financeiro das fraudes. Outro dado importante: empresas com Canal de Denúncias identificam os comportamentos não-éticos cerca de sete meses antes do que aquelas que não disponibilizam a ferramenta.

Para que uma organização fique sabendo se um ou mais desses casos está ocorrendo e possa agir para resolver, é fundamental que ela ofereça meios para receber esse relato com segurança e confiança na apuração.

Canal de prevenção de ocorrências

A educação dos colaboradores sobre as políticas da empresa e condutas esperadas é uma maneira de prevenir fraudes e comportamentos inapropriados. O Canal de Denúncias permite à empresa identificar frentes que precisam ser melhoradas e tomar medidas para garantir um ambiente de trabalho seguro e respeitoso.

O canal fornece estatísticas e conteúdo que cumprem a finalidade de educar, comunicar, agregar conhecimento e pensamento crítico sobre situações enfrentadas no dia a dia da organização. Nesse sentido, é válido que sejam feitas comunicações e treinamentos sobre temas importantes e que podem ser registrados no canal.

Confira ainda: O que você precisa saber sobre treinamento de Compliance

CIPA e o Canal de Denúncias

Desde 21 de março de 2023, todas as empresas com CIPA precisam, obrigatoriamente, ter um Canal de Denúncias. A CIPA, a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Assédios, é obrigatória em empresas com 20 funcionários ou mais.

Ou seja: se a sua empresa tem a partir de 20 colaboradores, você precisa se adequar à Lei 14.457 e implantar um Canal de Denúncias. Caso contrário, sua empresa está sujeita a multas.

Essa legislação, sancionada em 2022 mas que entrou em vigor em 2023, é uma conversão da Medida Provisória 1.116/21, que criou o Programa Empresa + Mulheres. O objetivo do programa é proporcionar um ambiente de trabalho mais seguro para as mulheres, garantindo um ambiente livre de assédios, apoio à parentalidade e à qualificação feminina.

A legislação também torna obrigatória a realização de “capacitação, orientação e sensibilização de empregados sobre temas relacionados à violência, ao assédio, à igualdade e à diversidade no âmbito do trabalho”.

🟢 Saiba mais sobre as exigências da legislação: Lei 14.457/22 e o combate ao assédio em empresas com CIPA

Como funciona o Canal de Denúncias?

As dúvidas relacionadas às responsabilidades do Canal de Denúncias são muito comuns. Definir os responsáveis pelo tratamento dos relatos e a governança pode ser um desafio, já que esse tópico está diretamente ligado à estrutura organizacional das empresas.

Algumas questões importantes para garantir o bom funcionamento do Canal de Denúncias:

Composição da equipe de tratamento dos relatos

A composição da equipe responsável pelo tratamento dos relatos recebidos no canal deve respeitar os diferentes setores. Além disso, essa equipe pode ser multisetorial, podendo incluir profissionais de integridade, Compliance, auditoria, investigação, jurídico, RH e demais áreas correlatas.

É importante, dentro dessa composição, ter a presença de gerentes ou diretores das áreas. Isso ajuda a garantir autonomia para analisar os relatos que envolvem a alta-hierarquia (C-LEVEL: VPs, presidentes) e conselheiros da companhia ou até mesmo a presença de conselheiros e C-LEVEL para avaliar reportes sobre os diretores. Porém, esses últimos não necessitam ter acesso a todos os relatos e sim somente a que lhe foi designada conforme a governança.

Regras para gestão das denúncias

Para todos os profissionais envolvidos no recebimento e tratamento direto dos relatos, é necessário estabelecer uma regra de gestão de conflitos. Isso quer dizer garantir que não recebam casos que denunciam a si próprios ou aos seus superiores diretos, lembrando sempre de respeitar as definições organizacionais.

Os canais podem contar ainda com o apoio de Comitê de Ética ou de Integridade nas proposições de ações e tomada de decisão pós conclusão da investigação. A composição desse comitê também deverá estruturada conforme a governança da companhia.

Fluxo de apuração dos relatos

É importante definir qual modelo de fluxo de apuração será implementado com o canal. Existem dois principais: Centralizado e Distribuído.

Fluxo Centralizado

Os profissionais responsáveis pela condução dos relatos podem centralizar as responsabilidades dentro da área escolhida por fazer a gestão do canal, como por exemplo Compliance, Integridade, Auditoria ou Jurídico.

Assim, à medida que recebem os relatos, essa área delega de forma interdisciplinar e independente para outros setores atuarem e devolverem ao time as evidências e materiais relativos a estas situações.

Dessa forma, apenas este time será responsável por conduzir e acompanhar a jornada de apuração do relato, desde a captação até a sua finalização. Este modelo é mais recomendado para canais que recebem poucos relatos, onde a área centralizadora terá condições de tratar caso a caso em todos os seus detalhes.

Fluxo Distribuído

Neste modelo, as empresas escolhem profissionais de diversas áreas, como Compliance, auditoria, RH e jurídico, distribuindo a tratativa para cada um conforme os temas de alçada das suas respectivas áreas.

Assim, por exemplo, relatos classificados na categoria comportamental são endereçados diretamente ao RH, os de fraude e atos ilícitos para auditoria, violação de normas e regulamentações para Compliance ou Jurídico, sem que haja centralização em uma única área.

Os profissionais também conseguirão acionar outras áreas de apoio no processo de investigação, mas seguem como responsáveis pela conclusão e deliberação do processo.

Este modelo é mais usado nas empresas que não tem uma área exclusiva de tratamento de relatos apurações, e para casos com um volume maior de relatos recebidos.

De toda forma, é sempre recomendado que se tenha um responsável com a visão geral dos relatos para geração de relatórios e indicadores para a alta direção, comitê de ética e demais áreas de reporte.

Como apresentar o Canal de Denúncias aos colaboradores?

A comunicação do canal tem como principal objetivo auxiliar no engajamento do seu público. O Canal de Denúncias deve fazer parte da cultura da empresa como um todo. Para que isso ocorra, é essencial que haja uma comunicação transparente e dinâmica sobre a usabilidade do canal e sua finalidade.

Também é importante esclarecer os temas que são de escopo da solução. Isso deve ocorrer com o auxílio da comunicação habitual da empresa, seja ela por meio de e-mail, adesivos, descanso de tela, banners, palestras, treinamentos, cartazes, entre outros. O importante é que seja feito de maneira frequente e em locais de fácil acesso e ampla circulação de pessoas.

É importante envolver a área de comunicação da empresa no suporte à criação dos materiais, para se respeitar a identidade visual e o tom da comunicação, bem como envolvimento da alta gestão para que sejam dados exemplos de que todos estão engajados no tema.

Idealmente deve-se ter uma agenda anual de comunicação do Canal, assim o público se acostuma a ouvir sobre ele e a usá-lo, e sensibilizar os novos colaboradores que nunca tinham ouvido falar dele.

É recomendável também executar periodicamente uma pesquisa sobre a credibilidade do canal e, de acordo com as respostas, criar campanhas destacando os pontos fortes e reforçando aqueles que não foram bem avaliados.

Quais os riscos de não ter um Canal de Denúncias?

Após o que já foi demonstrado sobre o que é um canal e o seu papel em termos de prevenção, informações e até adequação às leis, a importância dessa ferramenta é indiscutível. Falamos até agora sobre as vantagens de um Canal de Denúncias, mas é preciso considerar também os riscos associados à sua ausência.

Ao risco legal e à ignorância sobre o que acontece em uma organização, somam-se os riscos ligados aos problemas internos não endereçados adequadamente, tanto em termos de tempo quanto de modo.

Conforme esses problemas crescem, eles podem se desdobrar em danos reputacionais, como a ocorrência de escândalos, prejuízos financeiros oriundos de fraudes, ações judiciais trabalhistas e um ambiente de trabalho tóxico – que leva ao desengajamento dos colaboradores e consequente queda de produtividade.

Há ainda um custo pouco observado que é o da oportunidade: um Canal de Denúncias vai revelar problemas da empresa, com toda certeza. Nenhuma organização é perfeita. Mas, para evoluir, uma organização precisa conhecer seus problemas. Ao conhecê-los, será capaz de identificar as oportunidades de melhoria. Só um Canal de Denúncias pode proporcionar isso.

Como convencer a alta liderança a implementar o Canal de Denúncias?

Convencer a alta liderança sobre a importância de contratar um Canal de Denúncias, especialmente um canal externo, pode ser um desafio, mas é fundamental destacar os benefícios e a necessidade dessa ação. Aqui estão algumas estratégias para isso:

Enfatize a prevenção e mitigação de riscos

Reforce que um Canal de Denúncias pode ser uma ferramenta eficaz na prevenção de irregularidades e na mitigação de riscos internos.

Isso pode economizar recursos a longo prazo, além de promover a capacidade de identificar problemas internos antes que se tornem graves, a promoção de uma cultura ética e a melhoria das operações da organização.

Destaque a confidencialidade e integridade do Canal

Explique como um Canal de Denúncias externo pode garantir a confidencialidade das denúncias, protegendo os denunciantes de retaliação e mantendo a integridade das investigações.

Envolva a alta liderança no processo

Faça com que a alta liderança se sinta parte do processo de tomada de decisão. Solicite seu envolvimento na elaboração de políticas e na definição de procedimentos.

Engajar os tomadores de decisão é fundamental para que o Canal de Denúncias tenha um impacto positivo na organização, no curto e no longo prazo.

Como mensurar os resultados do Canal de Denúncias?

O resultado da efetividade do canal pode ser medido por indicadores como por exemplo:

  • Por tipo de relato;
  • Locais onde elas ocorrem;
  • Impacto;
  • Meio utilizado para o registro;
  • Tipo de conclusão;
  • Evolução mês a mês do recebimento dos casos;
  • Perfil dos denunciados;
  • Quantidade e tipos de medidas disciplinares aplicadas;
  • Quantidade de casos em apuração.

Estes indicadores darão subsídios para as tomadas de decisões, criação de planos de ação e promoção do engajamento da cultura ética na organização.

Somente alguns destes indicadores devem ser tornados públicos. Aqueles que indicam a efetividade do canal ou que possam apontar o resultado das apurações (por exemplo: o tipo de conclusão, a duração de toda a apuração e a quantidade de casos) geralmente não são tornados públicos.

Deve-se tomar muito cuidado para não revelar detalhes que possam expor os relatores ou denunciantes.

Por que terceirizar o Canal de Denúncias?

Como foi demonstrado até aqui, operar um Canal de Denúncias é complexo e demanda uma estrutura operacional específica. Ainda, o tratamento das denúncias demanda pessoas devidamente treinadas para tal, além da confiança de todo os stakeholders de que qualquer relato será tratado de forma técnica e imparcial.

Esta confiança pode ser abalada caso o Canal de Denúncias seja interno. Confira a seguir uma série de vantagens da terceirização do Canal de Denúncias:

Expertise especializada

Empresas especializadas têm conhecimento e experiência na configuração e operação eficaz desses canais. Isso significa que eles podem fornecer melhores práticas, tecnologia atualizada e procedimentos bem estabelecidos para lidar com denúncias.

Confidencialidade garantida

Terceirizar o Canal de Denúncias pode oferecer uma camada adicional de confidencialidade. Os denunciantes muitas vezes se sentem mais seguros ao relatar informações sensíveis a uma entidade externa, especialmente se estão preocupados com possíveis represálias internas.

Imparcialidade e transparência

Uma empresa terceirizada pode fornecer um nível mais elevado de imparcialidade no tratamento de denúncias, garantindo que não haja conflitos de interesse internos que possam comprometer a integridade das investigações.

Eficiência e agilidade

Empresas especializadas em serviços de denúncia geralmente têm processos eficientes para triagem, encaminhamento e acompanhamento de denúncias. Isso pode resultar em investigações mais rápidas e em ações corretivas mais ágeis.

Custos

Terceirizar um Canal de Denúncias pode ser mais econômico do que criar e manter um sistema interno, especialmente para organizações menores que não têm recursos para fazê-lo de maneira eficaz.

Foco no core business

Ao terceirizar funções como um Canal de Denúncias, a organização pode concentrar seus recursos e esforços em suas atividades principais, deixando a gestão do canal para especialistas.

Quando operado externamente, a quantidade de denúncias no canal é quase 30% superior aos que funcionam internamente. Isto porque os funcionários se sentem mais confiantes e confortáveis na hora de denunciar.

Além disso, pensando em empresas pequenas, a distância (virtual ou física) entre os colaboradores é menor. Esse contato constante faz com que um eventual Canal de Denúncias interno acabe não sendo visto como confiável, alimentando o receio de sofrer algum constrangimento e até um temor por represálias.

“A primeira impressão é a que fica” é um dito popular bem oportuno quando se fala em comunicação. Por isso, o lançamento de um Canal de Denúncias é essencial para que este seja bem recebido e visto como uma iniciativa positiva da empresa. Além do envolvimento de profissionais capacitados para a elaboração desse plano, é fundamental o engajamento da liderança.

Os líderes têm que estimular seu time a conhecer e utilizar o canal, deixando claro seu patrocínio e, principalmente, reforçando a confidencialidade e segurança proporcionada pelo mecanismo.

A divulgação da forma de acesso ao Canal de Denúncias é outro ponto relevante, pois de nada adianta incentivar o uso sem viabilizá-lo. Para isso, vale utilizar canais de comunicação tradicionais como os murais, newsletters e e-mails marketing, mas também pensar em soluções que despertem curiosidade e interesse.

Saiba mais sobre como funciona o Canal de Denúncias e os resultados obtidos no estudo realizado pela Aliant:

canal estudo

Assédio moral: entenda o que é, o que a lei diz e como evitá-lo 

assédio moral no trabalho

O início de um novo ano regularmente traz uma renovação de ânimo para colaboradores e empregadores. No entanto, essa esperança pode não ser compartilhada por vítimas de condutas abusivas causadoras de danos psicológicos no ambiente de trabalho. Estima-se que, em ambientes de trabalho, um terço das pessoas sejam vítimas de alguma forma de assédio moral.

Esse número faz bastante sentido se considerarmos que até outubro de 2023, as indenizações por dano moral somaram 182.280 processos na Justiça do Trabalho. Esses números só reforçam como é desafiador e necessário que as empresas adotem mecanismos que resolvam o problema.

Mas afinal, o que é assédio moral e quais as formas de prevenção? Como identificar e denunciar esse tipo de abuso? Essas são algumas das questões que abordaremos neste texto, buscando esclarecer esse conceito e oferecer orientações para que as empresas possam combater esse tipo de constrangimento no ambiente de trabalho.

O que é assédio moral no trabalho?

O assédio moral é uma conduta abusiva que pode se expressar mediante gestos, palavras e comportamentos que causam danos psicológicos ou emocionais em outra pessoa, intencionalmente ou não.

Muitas vezes, esse tipo de constrangimento é ignorado ou minimizado, podendo ser visto como uma mera brincadeira que não merece atenção. Existe inclusive um termo específico para situações em que uma piada ou comentário ofensivo são tratados como “elogio”: elofensa.

Contudo, no ambiente profissional esse fenômeno vai além das desavenças comuns, impactando negativamente a integridade, a dignidade e mesmo a identidade da vítima. Em muitos casos, quando a empresa não possui processos para detectar e resolver essas ocorrências, elas acabam impactando no ambiente de trabalho, gerando até problemas de performance e resultados.

Segundo a pesquisa “A evolução dos Canais de Relatos no Brasil”, entre 2018 e 2022, cerca de 54% das denúncias registradas foram referentes a algum problema no relacionamento interpessoal. De 2021 para 2022, os casos de assédio moral e sexual aumentaram 13%.

📣 Confira ainda: Canais de Relatos e Tendências em Compliance

Tipos de assédio moral

Em 2020, através da Resolução 351/2020, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) instituiu a Política de Prevenção e Enfrentamento do Assédio Moral, do Assédio Sexual e da Discriminação no âmbito do Poder Judiciário, definindo três tipos de assédio: o assédio moral, o assédio moral organizacional e o assédio sexual.

Assédio moral e assédio moral organizacional remetem a comportamentos similares, porém o segundo é praticado com a conivência da organização na qual ele acontece, seja ela pública ou privada.

Isso quer dizer que as condutas abusivas são amparadas por estratégias organizacionais, como métodos gerenciais, e suportadas por uma cultura problemática.

É importante ter no radar que a reprodução do assédio pode ocorrer de maneira compulsória e normalizada, e até mesmo justificada como estratégia de engajamento de colaboradores.

Para caracterizar uma situação de assédio moral, não é necessário ter uma diferença hierárquica entre o agressor e a vítima, embora seja comum que o assédio exista enquanto exercício de poder hierárquico.

Entenda os tipos:

Assédio vertical: Quando esses comportamentos ocorrem entre pessoas que ocupam diferentes posições na hierarquia.

O assédio vertical pode ser:

  • Descendente, ao ser praticado por superior hierárquico com um subordinado.
  • Ascendente, quando é praticado pelo subordinado em relação a um superior hierárquico.

Assédio horizontal: condutas entre pessoas que não possuem relação de subordinação, isto é, são realizadas entre colegas de mesmo nível hierárquico.

Há ainda a o assédio moral misto, quando a vítima é alvo tanto por parte de superiores hierárquicos como de colegas.

O assédio no trabalho remete a situações ocorridas no local ou no contexto em que uma pessoa realiza atividades laborais, englobando:

  • espaço físico, como escritórios, fábricas, laboratórios, por exemplo;
  • espaços virtuais, nos quais as relações interpessoais funcionam, como grupos virtuais, e-mail, aplicativos, ferramentas de comunicação interna etc.

Como identificar assédio moral no trabalho?

É crucial desmistificar alguns pressupostos sobre o assédio moral no trabalho. É comum que ele seja erroneamente compreendido como um fenômeno pontual ou restrito a situações extremas.

Na realidade, o assédio moral pode se manifestar de maneiras sutis e persistentes, minando a autoestima e a saúde mental da vítima ao longo do tempo.

Outro mito comum é a ideia de que apenas ações físicas configuram assédio, ignorando a violência psicológica, que pode ser igualmente prejudicial. Para identificar situações de assédio moral no trabalho, devemos estar atentos a algumas características:

Repetitividade/habitualidade

O assédio moral geralmente não é um incidente isolado, mas um padrão de comportamento que se repete ao longo do tempo.

Direcionalidade

A agressão é direcionada a uma pessoa ou grupo específico.

Intencionalidade

Pode ser difícil detectar o assédio moral por esse aspecto isolado, afinal, a intencionalidade consegue ser justificada ou camuflada em discursos socialmente aceitáveis para determinados contextos.

Mas é possível identificar uma finalidade discriminatória, para a qual o agressor age de forma deliberada, com a intenção de prejudicar, humilhar ou constranger a vítima.

Desigualdade de poder

É comum que o assédio moral ocorra onde há uma clara disparidade de poder, como entre um superior hierárquico e um subordinado.

No entanto, lembre-se que isso não é uma regra, e o assédio também pode ocorrer entre colegas de trabalho.

Impacto na saúde

O assédio moral pode provocar consequências sérias para a saúde mental e emocional da vítima, levando a sintomas como ansiedade, depressão, estresse intenso, insônia e outros problemas relacionados ao bem-estar psicológico e emocional.

Exemplos de caso de assédio moral

A sobrecarga constante de um funcionário com tarefas impossíveis de serem cumpridas, a disseminação de boatos difamatórios ou a exclusão deliberada de um membro da equipe são exemplos reais e recorrentes de assédio moral.

A seguir, listamos situações de assédio moral no ambiente de trabalho que precisam ser identificadas e tratadas enquanto tal:

Humilhações e constrangimentos

– Ridicularização constante perante os colegas;

– Comentários depreciativos sobre a aparência, habilidades ou desempenho do trabalhador;

– Críticas ao trabalho de modo exagerado, injusto, incluindo contestação sistemática de decisões.

Isolamento social

– Exclusão deliberada do trabalhador de atividades sociais ou profissionais;

– Ignorar sistematicamente a presença ou as contribuições do funcionário.

Sobrecarga de trabalho ou impacto em sua autonomia funcional

– Atribuição constante de tarefas impossíveis de serem cumpridas;

– Imposição de metas irrealistas com o intuito de causar frustração;

– Privar a vítima do acesso às ferramentas de trabalho ou de informações necessárias para a execução de suas tarefas;

– Exigir tarefas urgentes permanentemente.

Discriminação

– Práticas discriminatórias baseadas em características pessoais, como gênero, raça, religião ou orientação sexual;

– Tratamento diferenciado e injusto em comparação com outros colegas.

Abuso de autoridade

– Uso inadequado do poder hierárquico para impor decisões arbitrárias;

– Dificultar ou inviabilizar promoções;

– Coerção e ameaças para obtenção de favores ou submissão;

– Controlar tempo e frequência de utilização de sanitários;

– Desconsiderar condições de saúde e recomendações médicas;

– Interferir ou impactar o planejamento familiar de colaboradoras.

Espalhar boatos ou calúnias

– Propagação de informações falsas com o objetivo de difamar a reputação do trabalhador;

– Utilização de fofocas para prejudicar a imagem pessoal do colega de trabalho.

Intimidação e ameaças

– Ameaças verbais ou não verbais, criando um ambiente de medo;

– Comportamentos intimidatórios que comprometem a segurança psicológica;

– Violar a vida privada do funcionário com telefonemas, mensagens, cartas.

Legislação sobre assédio moral

No Brasil, o enfrentamento ao assédio moral no trabalho é respaldado por diversas normativas que visam proteger os direitos e a dignidade dos trabalhadores.

O artigo 483 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) possibilita que o empregado rescinda o contrato de trabalho em situações graves de descumprimento de obrigações por parte do empregador, algumas que podem caracterizar assédio moral.

No âmbito internacional, diversas convenções e tratados visam combater essa problemática. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, aborda a discriminação no emprego na Convenção nº 111 da OIT, e orienta os países membros a tomarem medidas para prevenir e eliminar práticas de assédio.

Adicionalmente, a Declaração Tripartite de Princípios sobre Empresas Multinacionais e Política Social da OIT enfatiza a importância da promoção de ambientes de trabalho saudáveis e respeitosos, incentivando a adoção de práticas que combatam o assédio moral.

Além disso, a Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, inciso X, assegura a inviolabilidade da intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas.

Recentemente, a Lei nº 14.457/22 trouxe avanços significativos no cenário brasileiro. Além de tipificar o crime de assédio, a legislação estabelece a obrigatoriedade de as empresas com CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Assédios) criarem canais internos de denúncia.

Esses canais visam proporcionar um ambiente seguro para que os trabalhadores possam relatar casos de assédio sem receio de represálias. A lei também destaca a importância da rápida investigação dos casos denunciados e a aplicação de medidas disciplinares adequadas aos responsáveis.

A legislação brasileira reconhece a gravidade do assédio moral e estabelece penalidades para empregadores que permitam a ocorrência dessas práticas. Contudo, existem desafios na efetiva aplicação dessas normas, especialmente no que diz respeito à comprovação do assédio, uma vez que ele pode se manifestar de maneira subjetiva e sutil.

Por isso, além das empresas disponibilizarem canais para relatos sobre assédio moral, é necessário que os colaboradores estejam bem-informados sobre como coletar informações que possam qualificar a denúncia, a fim de que se possa investigar adequadamente.

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Como lidar com os casos de assédio moral?

A resolução de situações de assédio muitas vezes se depara com dificuldades significativas. A vítima, frequentemente, encontra-se em uma posição vulnerável, temendo represálias ou retaliações ao reportar o assédio. A cultura organizacional, por vezes, favorece o silêncio, dificultando a denúncia e perpetuando o ciclo do assédio.  

Além disso, a falta de políticas eficazes de prevenção e combate ao assédio moral pode criar um ambiente onde tais práticas se normalizam. Sem o respaldo de uma cultura organizacional segura ao bem-estar do colaborador, o silêncio e a perpetuação dos comportamentos indevidos, discriminatórios e violentos são favorecidos. 

A forma mais efetiva de prevenir o assédio moral no trabalho está, portanto, na estruturação de um programa de conformidade. Esse pode ser descrito como um sistema de controle organizacional formal concebido para impedir comportamentos antiéticos, criar uma cultura ética e promover comportamentos éticos (KAPTEIN, 2009).  

Pode ser considerado a primeira linha de combate, mas também atua como suporte às atividades de Direitos Humanos e Diversidade & Inclusão

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No âmbito de mudança cultural, são necessárias ações de comunicação e treinamentos efetivos para que todos os colaboradores entendam como identificar tais situações e estejam cientes que quem comete assédio no ambiente de trabalho deverá será responsabilizado por sua conduta em diferentes esferas. Na esfera civil, pode implicar a responsabilização por danos morais e materiais. Na esfera trabalhista, há o amparo dos arts. 482 e 483 da CLT.  

O assediador poderá ser penalizado também na esfera administrativa, quando há enquadramento de infração disciplinar. Por fim, os atos podem caracterizar crime contra a honra, crime de racismo ou crime de lesão corporal, implicando a responsabilização também na esfera criminal. 

Entre os mecanismos de um programa de conformidade efetivo há o conhecimento e a integração do Código de Conduta ética da empresa nas rotinas de trabalho; a comunicação clara e acessível entre profissionais de diferentes hierarquias; a convivência saudável com a diversidade e, em ocorrências de assédio, o Canal de Denúncias.  

Isso ocorre porque o objetivo principal de um programa de integridade é o de influenciar positivamente o comportamento dos colaboradores, ao transformar a cultura empresarial da companhia (por meio de atitudes, como resguardar as vítimas e punir agressores). O Canal é a linha de contato direta com a administração, uma das ferramentas mais importantes durante esse processo.  

O treinamento e as instruções específicas para o uso do Canal são mandatórios, a fim de que seja uma ferramenta facilmente acessível e que os relatos sejam realizados com a qualificação necessária à apuração.  

É indispensável que o Canal seja uma via segura, com garantia do direito ao anonimato, que as denúncias recebidas sejam tratadas apropriadamente por equipes treinadas e, se possível, terceirizadas, para não haver conflitos de interesses.

Ainda mais, é preciso que a companhia se posicione corretamente, mantendo a sua coerência reputacional e aplicando as responsabilizações aos agressores.  

Entenda mais sobre o tema no artigo:

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