Canais de denúncia evoluem no Brasil e quantidade de delações dobra, em 5 anos

Canal de denuncias

Fundamental no fortalecimento do processo de integridade nas empresas e organizações, os Canais de Denúncia vêm ganhando mais relevância, nos últimos cinco anos, no Brasil. A afirmação é do palestrante do webinar ‘Canais de denúncia: experiência global como instrumento de Ética & Compliance e o caso do IES’, Fernando Scanavini, que é diretor Executivo de Operações na ICTS Protiviti, especializada no tema e responsável pelo Canal de Denúncia independente do Instituto Ética Saúde. O evento aconteceu no dia 26 de maio.

Na abertura, o integrante do Conselho de Ética do IES, Edson Luiz Vismona, destacou que o Instituto tem se desdobrado em ações, na definição de normativas e orientações, mostrando que as boas práticas devem ser incentivadas. “Essa é uma contribuição efetiva que o IES dá para estimular o setor de saúde. E esta rede precisa se consolidar cada vez mais, com base em princípios éticos concorrenciais e éticos voltados para as práticas junto ao mercado”. Citou a importância do canal de denúncias neste contexto. “Estamos saindo da visão de tese (dever ser) para colocar em prática. Essa é a demanda da sociedade e do consumidor, que cada vez mais identifica e valoriza a reputação das empresas. É preciso depurar o mercado, fortalecendo as companhias que tanto investem em iniciativas para combater desvios que corroem a competitividade do setor. Nesse sentido, o IES, em parceria com demais entidades da saúde, tem intensificado essas ações de integridade”.

Fernando Scanavini definiu os canais de denúncia como “a principal porta de entrada para o conhecimento do que acontece nas organizações para que se siga com as apurações e, consequentemente, para que os negócios ocorram de maneira ética e dentro das melhores práticas de mercado”.

Segundo ele, nos últimos cinco anos, a ICTS registrou um crescimento de mais de 100% no número de denúncias recebidas por grupo de mil pessoas. Em 2015 eram 2,4 relatos mensais a cada 1 mil colaboradores, saltando para 4,99 em 2020. “Isso mostra o nível de confiança nesta ferramenta. Neste período, as empresas e organizações ampliaram a disponibilização desses canais e houve maior exposição na mídia de temas que antes não eram abertamente discutidos pela sociedade (corrupção, assédio, racismo e violência contra a mulher, entre outros)”, analisou.

O especialista explicou o ciclo de um canal de denúncia, desde a captação, análise preliminar, investigação, conclusão e deliberação pelo comitê de ética. E destacou como as informações captadas pelo canal são importantes no tratamento de vulnerabilidade e riscos; nas melhorias em mecanismos de gestão e controle; e no treinamento e comunicação. Frisou que “cada vez mais os denunciantes têm colocado elementos que permitem a apuração do caso. Isso é muito importante. Percebemos um aumento de denúncias procedentes de 31% para 37%. Essa evolução progressiva da procedência (comprovação das denúncias após condução da apuração) demonstra ampliação, ano após ano, da maturidade do Canal nas organizações. O efeito combinado do maior nível de qualificação (aproveitamento dos relatos registrados para condução de apurações objetivas) e da maior procedência amplifica o retorno do Canal à organização em termos qualitativos e quantitativos”, afirmou Scanavini.

O diretor Técnico do Instituto Ética Saúde, Sérgio Madeira, moderador do webinar, apresentou os dados do Canal de Denúncias do IES: 684 recebidas e tratadas; 187 encaminhamentos para órgãos de governo que tem acordo de cooperação firmado com o IES; 108 denúncias finalizadas por falta de inconsistência ou fora do escopo do IES; 11 recomendações e 44 advertências. E destacou o rigor com que o Canal é tratado internamente, desde a criação. “O Instituto assegura o absoluto sigilo do conteúdo denunciado e do denunciante. Ao longo desses anos, não temos nenhum histórico de vazamento de informações. Só tem contato com os relatos o assessor de compliance que qualifica as denúncias e o Conselho de Ética que as analisa. Apenas os casos previstos – gravíssimos e comprovados – tem divulgação prevista em instrução normativa”, enfatizou.

Edson Vismona voltou a citar a importância da qualidade das informações. “Este é um desafio permanente, identificar os elementos mais concretos e formar um juízo, uma avaliação mais precisa com relação a denúncia”, finalizou.

O webinar teve o apoio institucional da ABIMO, ABRAIDI, ABRAMED, IBROSS e Observatório Social do Brasil. O conteúdo completo está disponível no YouTube do Instituto Ética Saúde: www.youtube.com/watch?v=KdcERv0GnzY.

Por Fernando Scanavini, diretor Executivo de Operações na ICTS Protiviti

Fonte: Portal Hospitais Brasil
https://portalhospitaisbrasil.com.br/canais-de-denuncia-evoluem-no-brasil-e-quantidade-de-delacoes-dobra-em-5-anos/

Uso do Canal de Denúncias: Brasil x Europa

Recentemente, a Association of Certified Fraud Examiners (ACFE) publicou em seu blog um artigo com informações sobre a implementação e o uso do Canal de Denúncias em empresas europeias e internacionais. Maior organização antifraude do mundo, a ACFE fez suas conclusões com base em um estudo que envolveu 200 empresas, autoridades e outras organizações que utilizam sistemas para o registro de denúncias e irregularidades.

Cenários de evolução são semelhantes

Durante o ano de 2017, com a exposição de desvios de conduta relevantes e maior incidência de prejuízos, nos países europeus houve um progressivo reconhecimento da importância das denúncias como forma de descobrir, investigar e tratar irregularidades no ambiente corporativo. Como consequência, muitos países entenderam a necessidade de proteger seus denunciantes, criando legislações específicas para o resguardo dos mesmos.
Tal evolução na mentalidade para com denúncias e denunciantes foi igualmente observada no cenário brasileiro. De acordo com o estudo de 10 anos de Canal de Denúncias, realizado pela ICTS Outsourcing, houve aumento considerável no volume, relevância e utilidade dos Canais de Denúncias no Brasil. A partir de 2009, com o início da Operação Lava Jato e em 2014, com a aprovação e implementação da Lei Anticorrupção, os Canais de Denúncias passaram a ser parte integrante dos programas de Compliance e, assim, vistos como fundamentais para a efetividade no combate à corrupção.

Comparativo indica uso mais amplo do canal de denúncias no Brasil

Alguns tópicos-chave destacam-se no estudo europeu:

  1. O Canal de Denúncias está se popularizando nas organizações europeias

As organizações participantes do estudo europeu relataram um maior recebimento de denúncias em 2017 quando comparado aos anos anteriores. As estatísticas mostraram que, em média, as empresas receberam 1 relato por ano para cada grupo de 400 colaboradores – o equivalente a 0,2 relatos/mês para cada grupo de mil funcionários.
Com a popularização do Canal de Denúncias, mais empresas ampliaram o acesso ao canal e, agora, incluíram grupos externos – como fornecedores e clientes.
No Brasil, o movimento em prol do Canal de Denúncias mostra-se estabelecido há mais tempo. Este instrumento já é aceito e bem visto nas organizações brasileiras e/ou que operam no Brasil, o que fica claro na comparação das estatísticas de utilização do Canal: no Brasil observa-se uma média de 3,5 relatos para cada grupo de mil funcionários – 17 vezes maior do que os 0,2 relatos/mês observados na Europa.
Além da predominância da participação de colaboradores no registro das denúncias brasileiras, o público externo teve aumento em sua parcela de contribuição. Em 10 anos de estatísticas levantadas pela ICTS, clientes e fornecedores mostraram-se mais participativos. Clientes foram os responsáveis por 7,1% das denúncias; somente em 2017, o percentual avançou para 8,4%. Já os fornecedores tiveram a parcela de 4,5% dos relatos em 10 anos; somente em 2017, essa parcela avançou para 5,9%.

  1. Registros eletrônicos são predominantes

Sobre a origem dos registros, a avaliação europeia chegou à conclusão de que cerca de 90% das denúncias foram feitas por meio de registros eletrônicos (website, formulários eletrônicos ou e-mail). Com o número cada vez maior de smartphones com acesso à internet, a facilidade em denunciar via web parece substituir a preferência anterior, pelas linhas telefônicas. Após a implementação da GDPR – Regulamento Geral Sobre a Proteção de Dados –, os denunciantes sentem-se ainda mais seguros em fazer seus relatos on-line.
No Brasil, este número correspondeu à 55% das denúncias feitas ao longo de 10 anos dentro dos canais operados pela ICTS Outsourcing. Já os registros realizados por voz foram os responsáveis por 40% das denúncias, mostrando que, apesar do avanço tecnológico, nosso país ainda segue valorizando a abordagem direta e pessoal. Quando corretamente operadas, as linhas telefônicas maximizam a velocidade e efetividade dos processos de apuração das denúncias, já que oferecem maior riqueza na interação com os denunciantes.

  1. Perspectiva: o caminho para a denúncia

Disponibilizar um canal acessível para denúncias não é sinônimo de receber mensagens irrelevantes, relatos feitos com má fé ou outras reações negativas dos funcionários. Muito pelo contrário: as organizações europeias pesquisadas indicaram que, sem o Canal de Denúncias, as informações levantadas seriam muito difíceis de serem obtidas de outras maneiras.
Ainda que as diferenças culturais e legislativas sejam latentes entre Brasil x Europa, existe um senso comum. Nos estudos da ICTS Outsourcing foi possível obter uma visão clara sobre a importância da especialização dos profissionais que atuam na triagem e qualificação das denúncias. Em 10 anos, quase 1/3 do total de denúncias foram classificadas como “não-qualificadas”. É a triagem especializada que permite a redução do ruído sobre as informações registradas no canal, direcionando os esforços das empresas para os relatos que, de fato, possuem os atributos necessários para serem averiguadas.
E a sua empresa, já possui um Canal de Denúncias corretamente estruturado? Deixe o seu comentário ou entre em contato com os nossos especialistas.

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